terça-feira, 7 de julho de 2015

Efeito espelho

Não é da projeção de minhas sombras nas atitudes de outros a que me refiro.

Pelo contrário, e de um costume que por muito tempo me fez recolher minha sombra, negá-la e envergonhar-me dela.

Há muitas técnicas e práticas que tratam de nossas crianças feridas, que nos levam à origem de reações reflexas de proteção ou de ataque, que são a "lei pessoal" que nos boicota... a minha lei é "eu não sou importante!"  

Penso que por isso mesmo eu não me permitia "conscientemente" ser vulnerável. D e p e n d e n t e,  para mim era um insulto, uma ofensa!... até que na prática, de uma dessas técnicas, minha criança dependente tomou voz e me vi dizendo "mas eu queeeeeero, eu quero agoooooora!"... e apesar de estar sentindo a emoção desse momento ainda tinha outro eu dentro, olhando como se não fosse comigo, como se minha colega que fazia o exercício comigo, se comovendo e querendo me acolher, não estivesse olhando para mim... mas o eu que observava, não tinha acesso a expressão corporal, eu criança soluçava copiosamente. Quem conduzia a prática, sensível, não deixou que colapsasse, entendi depois que é importante sustentar esse momento,  observando... e muito importante, sem o eu observador julgando, só observando. 

E aqui que entra o espelho... depois da prática a vulnerabilidade e a dor de abandono, passaram, instantaneamente... mas, só até chegar em casa... então uma tristeza tomou conta de mim e chorei, aquelas lágrimas que saem quentes e pesadas... instintivamente fui para a frente do espelho e reparei na minha fisionomia... e lembrei ou criei a lembrança, seilá, de alguém maior, muito maior que eu me dizendo... "olha como você está feia, desse jeito ninguém vai te querer, ninguém vai gostar de você."

Ir para frente do espelho é um hábito ... pensava que fosse uma forma de não me levar tão a sério, de ver aquela reação como um teatrinho, um drama de autopiedade... vejo agora que não é sempre assim.

No dia, seja como for, pensei, "não vou ficar aqui de mimimi"... tinha uma festa com pessoas queridas para ir... abandonei o pensamento e fui me arrumar para sair... mas a tristeza estava lá, de castigo, olhando para baixo, engolindo o choro, tentando melhorar sua aparência... e ai que entendi o sustentar... sim, estava triste porque eu não podia ter um montão de coisas agora, então olhei para minha "quero agora" e a deixei a vontade, tirei o espelho da frente do seu rosto e agradeci por estar lá.

Porque, paradoxalmente, meu "eu quero agora, dependente" é uma chave para desarmar meu "eu não sou importante", porque assim eu sou alguém que merece e pode pedir ajuda, merece e pode viver a abundância, merece e pode expressar suas potencialidades... sim Eu quero agora!

Então, agora quero, deixar registrada minha Gratidão a minha colega Juliana pela gentileza no olhar, e ter dado continudade ao exercício, me ajudou a ter o mesmo acolhimento comigo; gratidão a meus queridos Vidya e Viren que trazem aspectos à luz tão doce e apropriadamente, Sabedoria e Coragem; gratidão a Sergio Kioshi que trouxe à luz minha lei pessoal e também minha lei eterna, que é " A cada dia eu recebo mais luz e as mudanças são sempre boas para mim."

Namastê crianças _/ <3 \_

Com amor 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Distrato

Como saber qual a energia que me movimenta, meu potencial... 
Por mais de uma vez vi, me foi dito e apareceu, bem na frente do meu lindo narizinho, que tudo começa por compartilhar. 

"Conecte-se com sua história, fale algo seu". Something to say - algo a dizer... então lá vai: 

Ontem fiquei sabendo do distrato de casamento de uma pessoa linda! 

Bom, distrato, porque um casamento se desfez antes de se concretizar e os preparativos, que estavam previamente contratados, para acontecer, agora serão desfeitos... o fato é que me lembrei do dia em que o distrato do meu casamento aconteceu. Numa condição diferente, pois estávamos juntos há cerca de 14 anos, entre namoro e casamento... 

Foi há três carnavais. Cheguei de viagem e acordei meus pais da sesta, sentei eles na sala de sua casa, sentei de mãos dadas ao lado do meu então marido e comuniquei que iriamos nos separar... neste momento não vou descrever as reações, mas havia lágrimas nos olhos deles, não nos meus. Ajudei meu já ex-marido a fazer a mala do necessário para ele ficar na casa de um amigo e ele foi. 

Passei os dias seguintes, daquele feriado de carnaval, desfazendo caixas, pois na época morávamos com meus pais, na verdade, somente ele, eu morava em Brasília e "nossa casa" estava encaixotada. 

O desfazimento daquelas caixas foi doloroso, com trilha de Cartola e muitas lágrimas só minhas... cada objeto que pegava falava um pouco do que cada um de nós trouxe e agora seria devolvido... outras coisas não sabia em qual caixa colocar, minha?, dele?... 

O fato é que agora percebi que muitas das coisas que iam para caixa das dúvidas, iam porque me desidentificava delas... um desfazimento do que seria nossa vida em comum. O vazio que ficou em mim era bem maior que a caixa cheia de coisas com um signo de interrogação bem grande nela... estava criando espaço para minha vida, só minha, embora não soubesse disso. 

Agora entendo que esse vazio foi fundamental e mesmo depois de ter terminado de separar objetos, passei um tempão desfazendo-me de conceitos, expressões e sonhos que não eram só meus... 

Certa vez percebi que 90% das perspicazes frases que usava para arrematar algum comentário eram dele... heheheh, tenho que admitir ele sempre foi hábil com palavras. 

É doloroso esse distrato, mas só de inicio, quando as coisas são só coisas. Quando voltei a mim e me dei espaço resgatei algo que nem sabia que eu tinha. 

Nestes três anos, a cada reencontro comigo, fui abrindo espaço e devolvendo o que não era meu... uma delícia, pois fica uma ternura pelo que vivi com ele e a minha própria história vai tomando forma. 

Acredito que nada acontece por acaso. Quando nos apropriamos das nossas caraterísticas e nos questionamos que formalidades e estruturas são só coisas elas podem ser devolvidas. Com ou sem dor, o que pode ser mais uma formalidade... o importante pra mim foi perceber que o espaço que se abriu me permite viver minha própria êxtase. 

Gratidão a quem me abriu os olhos, gratidão a quem vive esse desfazimento para se dar espaço, gratidão a quem fez e faz parte de minha vida. 
Minha vida, minha mudança, minha êxtase  ^_^